Por Dra. Gabriela Bellini · 24 de agosto de 2026 · Leitura de 8 minutos
Síndrome ovariana metabólica poliendócrina — o novo nome da SOP. Em maio de 2026 um consenso global mudou o nome da síndrome dos ovários policísticos. Não foi questão de estilo: o nome antigo dizia que o problema era um cisto no ovário — e não é. Este guia explica o que acontece no corpo, por que o diagnóstico não sai de um ultrassom e por que o estilo de vida é tratamento.
1
Por que o nome mudou
Três equívocos que a palavra “policístico” carregava
Não são cistos
Equívoco nº 1
O que o ultrassom mostra
Aquelas bolinhas não são cistos: são folículos parados — óvulos que começaram a crescer e estacionaram no meio do caminho, porque nenhum conseguiu assumir a liderança e ovular.
A consequência prática
“Ovário policístico” é um achado de imagem, não uma doença
Muitas mulheres saudáveis, sobretudo jovens, têm essa aparência no ultrassom sem ter a síndrome
E é possível ter a síndrome com ovários de aparência normal
Não é só do ovário
Equívoco nº 2
Por isso “poliendócrina”
Vários sistemas hormonais estão envolvidos ao mesmo tempo: a insulina, os androgênios e o comando que vem do cérebro para os ovários. O ovário é onde a alteração fica visível — não onde ela começa.
Por isso “metabólica”
Repercussões no açúcar do sangue, no colesterol, na pressão e no fígado
Manifestações na pele e nos cabelos: acne, oleosidade, pelos, queda
Impacto reprodutivo, no endométrio e na saúde emocional
O nome atrasava o diagnóstico
Equívoco nº 3
O tamanho do problema
A síndrome atinge 10% a 13% das mulheres em idade reprodutiva — e, no mundo todo, até 70% delas não sabem que a têm. Um nome que aponta para o lugar errado ajuda a explicar essa demora.
Como a mudança foi feita
Consenso global de 56 organizações acadêmicas, clínicas e de pacientes
Mais de 14.300 pessoas com a síndrome participaram; 86% delas apoiaram o novo nome
Publicado no The Lancet em maio de 2026, com transição de 3 anos
Os critérios e o tratamento não mudaram — mudou o nome
2
O que acontece no corpo
A engrenagem da síndrome, passo a passo
1
A insulina sobe
O corpo responde menos à insulina, e o pâncreas compensa produzindo mais. Isso acontece também em mulheres magras — não depende do peso.
2
O ovário recebe dois estímulos
A insulina em excesso age junto com o LH, hormônio que vem do cérebro. Juntos, mandam o ovário produzir mais androgênios — os hormônios “masculinos” que toda mulher tem.
3
Sobra hormônio livre
A insulina alta faz o fígado produzir menos SHBG, a proteína que transporta os hormônios. Com menos transporte, sobra mais testosterona solta e ativa — a que causa acne e pelos.
4
O folículo trava
Com androgênio em excesso, nenhum folículo consegue assumir a liderança e ovular. Vários ficam pequenos e parados — é exatamente isso que aparece no ultrassom.
5
Sem ovulação, sem progesterona
O ciclo fica irregular ou desaparece, o endométrio fica exposto só ao estrogênio, e o AMH sobe — porque ele vem justamente desses folículos parados.
3
O diagnóstico vai muito além do ultrassom
Nenhum exame isolado fecha o diagnóstico — e o ultrassom, sozinho, não fecha nada
“Meu ultrassom deu ovário policístico” não é diagnóstico
A imagem é apenas um dos três critérios, e o menos específico de todos. Muitas mulheres saudáveis têm essa aparência — e muitas mulheres com a síndrome têm ovários de aparência normal. O diagnóstico é clínico: nasce da história menstrual, do exame físico e de exames de sangue, com a imagem entrando apenas quando ainda falta uma peça. Por isso o consenso internacional passou a aceitar o AMH como alternativa ao ultrassom em adultas.
Critério A
Ciclo
Ciclos irregulares ou ausência de ovulação
Ciclos mais curtos que 21 dias ou mais longos que 35, ou menos de 8 menstruações por ano, na mulher adulta. Qualquer ciclo acima de 90 dias já chama atenção sozinho.
Ciclo regular não exclui: em parte dos casos a menstruação vem, mas sem ovulação — o que se investiga com dosagem de progesterona na segunda fase.
Critério B
Androgênios
Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial
Clínico: pelos grossos e escuros em áreas de padrão masculino (hirsutismo), acne persistente que não responde ao tratamento habitual, oleosidade e queda de cabelo com afinamento no topo.
Laboratorial: testosterona total e livre, calculadas com a SHBG. O sinal clínico vale por si só — não é preciso que o exame também venha alterado.
Critério C
Imagem ou AMH
Ovários ou hormônio antimülleriano
Ultrassom: 20 ou mais folículos em pelo menos um ovário, ou volume ovariano de 10 mL ou mais, com transdutor de alta resolução. Ou AMH elevado, que desde 2023 substitui a imagem em adultas.
Se os critérios A e B já estão presentes, este terceiro não precisa ser feito — não muda a conduta.
Antes de fechar: o que precisa ser descartado
TSH
Doenças da tireoide alteram o ciclo e imitam o quadro
Prolactina
Prolactina alta é uma causa frequente de ciclos ausentes
17-OH-progesterona
Descarta a hiperplasia adrenal congênita de forma não clássica
Conforme o quadro
Cortisol e DHEA-S, quando há sinais de outras causas de excesso de androgênio
Por isso
A SOMP é um diagnóstico de exclusão: só se confirma depois que outras causas são afastadas
O que vem junto do diagnóstico
Glicemia
Avaliação do açúcar no sangue em todas, adultas e adolescentes, já no diagnóstico
Risco cardiovascular
Pressão, peso, circunferência abdominal e perfil lipídico
Saúde emocional
Rastreio de depressão em todas e de ansiedade nas adultas — recomendação formal da diretriz
Sono
Investigar apneia do sono quando há ronco, sonolência ou cansaço persistente
Endométrio
Ciclos muito espaçados exigem proteção endometrial — não é só uma questão estética
Preciso repetir o ultrassom?
Não como rotina. A imagem não serve para acompanhar a evolução nem a resposta ao tratamento — quem acompanha são o ciclo, os sintomas e os exames metabólicos.
Tomo pílula. Dá para investigar?
A pílula regulariza o ciclo e reduz os androgênios, então mascara justamente os dois critérios principais. Quando a investigação é necessária, combinamos a pausa e o melhor momento de coletar.
Fui diagnosticada há anos. Vale rever?
Vale — principalmente se o diagnóstico foi feito na adolescência, ou se veio apenas de um ultrassom, sem avaliação clínica e laboratorial.
4
Na adolescência, cautela
Um diagnóstico apressado acompanha a paciente pela vida inteira
Por que a regra é diferente
O eixo ainda amadurece
Nos primeiros anos após a menarca, ciclo irregular e acne são esperados. Fazem parte da transição, não da doença.
Ultrassom e AMH ficam de fora
Nessa idade têm especificidade baixa demais: o padrão de muitos folículos é comum em adolescentes saudáveis. Não entram no diagnóstico.
Precisa dos dois critérios
Só se diagnostica com hiperandrogenismo e irregularidade menstrual juntos — dois de três não basta aqui.
“Risco aumentado”
Com apenas um critério, registra-se risco aumentado e reavalia-se depois. O diagnóstico definitivo pode esperar até 8 anos da menarca.
Quando o ciclo é considerado irregular
1º ano após a menarca
Irregularidade é normal e esperada
De 1 a 3 anos
Ciclos menores que 21 ou maiores que 45 dias
A partir de 3 anos
Menores que 21 ou maiores que 35 dias, ou menos de 8 ciclos por ano
Em qualquer momento
Um único ciclo acima de 90 dias, depois do primeiro ano
Ausência de menarca
Aos 15 anos, ou 3 anos após o início do desenvolvimento das mamas
5
Estilo de vida é tratamento
Primeira linha para todas as pacientes — independentemente do peso
O que muda a engrenagem
E por que funciona
Por que é a primeira linha
Age no ponto central: reduz a resistência à insulina, e menos insulina significa menos androgênio
Com menos androgênio, o folículo volta a conseguir amadurecer — a ovulação, o ciclo e a pele respondem juntos
Atividade física · adultas
150 a 300 min por semana de intensidade moderada, ou 75 a 150 min de intensidade vigorosa, mais 2 dias de fortalecimento muscular
Para benefício maior ou perda de peso, a meta sobe para 250 min por semana de atividade moderada
Atividade física · adolescentes
Pelo menos 60 minutos por dia de atividade moderada a vigorosa
Vale a atividade do dia a dia: ir a pé, dançar, esporte na escola — não precisa ser academia
Alimentação
Nenhuma dieta se mostrou superior a outra nos estudos — não existe “a dieta da SOMP”
A melhor é a que você consegue sustentar. Restrições extremas costumam piorar a relação com a comida
O resto do pacote
Sono regular, cuidado com o tabagismo e o álcool, e atenção à saúde emocional
Ansiedade, depressão e transtornos alimentares são mais frequentes nessa síndrome e precisam ser tratados
E a fertilidade?
Sem ovulação, a gravidez não acontece sozinhaQuando a menstruação some ou vem muito espaçada, é sinal de que não há ovulação regular — e a indução da ovulação pode ser necessária. É um tratamento bem estabelecido e eficaz.
O estilo de vida vem antes e juntoAtividade física e alimentação adequada reduzem a resistência à insulina e, com ela, o excesso de androgênio — que é justamente o que trava o folículo. O efeito na fertilidade é direto.
Muitas engravidam espontaneamenteEm quem tem excesso de peso, a perda de peso pode ser suficiente para retomar ciclos ovulatórios e permitir a gestação natural. E, quando a indução é necessária, chegar a ela com o metabolismo equilibrado faz parte do preparo.
Quatro pontos para levar daqui
Nome novo, mesma síndromeCritérios diagnósticos e tratamento continuam exatamente os mesmos. A transição para SOMP leva três anos e chega à diretriz internacional em 2028.
Não tem cura, tem controleÉ uma condição crônica, e o objetivo do acompanhamento é controlar sintomas e reduzir riscos de longo prazo — metabólicos, endometriais e cardiovasculares.
SOMP não é sinônimo de infertilidadeA dificuldade é ovular de forma previsível, não a impossibilidade de engravidar. Muitas engravidam espontaneamente, e há tratamento eficaz quando não acontece.
O acompanhamento é para a vida todaMesmo com os sintomas controlados, glicemia, pressão, peso e endométrio seguem sendo avaliados periodicamente.
Este material é informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento da SOMP são individualizados. Em caso de dúvidas, sintomas novos ou resultados alterados, entre em contato com o consultório.
Fontes consultadas
Nova nomenclatura, processo de consenso e período de transição:Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process — The Lancet, maio de 2026. Critérios diagnósticos, uso do AMH, limiares ultrassonográficos, regras para adolescentes, exames de exclusão, rastreios associados e recomendações de atividade física:International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome (Monash University / ASRM / ESHRE, 2023). Fisiopatologia, papel da insulina, da SHBG e do LH: FEBRASGO — Protocolo: síndrome dos ovários policísticos (Femina, 2025). Prevalência e proporção de mulheres sem diagnóstico: Organização Mundial da Saúde — Polycystic ovary syndrome fact sheet.